Caverna do Urso

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Meu Personagem na Janela

            Pela janela posso ver, refletido em seus pensativos olhos castanhos, o passar das nuvens nessa tarde de inverno. Ele ignora minha presença do outro lado do vidro, mantendo o ar de quem está tão longe em suas reflexões que um mero movimento para se acomodar melhor em seu assento poderia fazer perder sua linha de raciocínio para sempre.

            Ele leva, por vício, a mão esquerda à barba que cresce em forma triangular, logo abaixo de seu queixo, e passa a acaricia-la, de cima abaixo, continuamente. Gesto tão automático que muitas vezes só vem a perceber quando sente que um dos negros e não-tão-compridos-ainda fios ficou entre seus dedos. As mãos, uma a acariciar a barba e a outra repousando sobre um dos joelhos, são grandes e carnudas, mas não são desproporcionais. Me permito constatar que é um rapaz corpulento, de sobrancelhas grossas e cabelo comprido até o meio das costas. Um jovem adulto, que carrega no semblante o peso que essa possível nova inquietação possa acarretar em sua vida.

            Acho constrangedora a facilidade com que ele consegue sustentar aquela feição por tanto tempo, sem notar-me ou, pior ainda, ignorando completamente a minha presença por trás do vidro transparente. Justo eu, que por tanto tempo venho analisando-o, suas ações e reações, e tentando descobrir que tipo de sinapses estão correndo dentro daquela testa saliente. Como alguém pode demorar tanto tempo a dar-se conta de que está sendo observado?

            Certamente passa por sua cabeça que uma grande etapa de sua vida está se encerrando, posso ver isso pelo frisar de suas sobrancelhas.  Vejo, também, um tom grave de preocupação nas profundas olheiras que marcam pesadamente seu rosto. O puxar constante e impensado da barba, para mim, só expressa um nervosismo inconclusivo, oriundo daqueles últimos momentos antes de dormir, quando o cérebro insiste em perguntar ao corpo cansado: “E então, o que a vida há de trazer para nós a seguir?”.

            Percebo um vislumbre de reconhecimento no olhar dele e descubro, naquele instante, seu nome. Fecho a janela e novamente aquelas preocupações, aquele nervosismo e aquele fio de barba entre os dedos são meus, não mais dele. Hora de coloca-los todos, com exceção do pelo facial, no papel. Onde estará o apontador, para afinar as linhas que descrevem a minha vida?                

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Posted on Tuesday, July 26 2011.

Caverna do Urso Peguem uma pedra, sentem-se e sintam-se em casa na Caverna do Urso.

Um canto pra divulgar fotos, vídeos, links e textos (de outros e de autoria própria) que eu encontrar pela internet. =P

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